Abstract
A parcialidade epistêmica na amizade (PE) é a tese segundo a qual ser um bom amigo de alguém envolve tratar essa pessoa de forma diferente, em um sentido epistêmico. Sarah Stroud (2006) e Simon Keller (2004) defenderam essa tese e argumentaram que ela está em tensão direta com demandas de racionalidade epistêmica. A posição deles é que quando nossos amigos estão envolvidos em algum assunto ao qual temos que dar nossa avaliação (sobre os fatos, suas ações ou seu
caráter), tendemos a dar à questão um tratamento epistêmico diferencial, não reservado a não-amigos. Neste artigo, quero tratar de duas possíveis formas de responder à PE. Primeiro, quero discutir a rejeição de Sandy Goldberg (2018, 2020) a essa tese e à tensão que ela supostamente cria com as exigências da racionalidade epistêmica. Em sua proposta, Goldberg defende o comportamento epistêmico diferencial que a PE pressupõe, mas também argumenta que tal comportamento não configura um tipo de PE, e que tampouco está em tensão com as exigências da racionalidade epistêmica. Irei sugerir que a posição de Goldberg não capta uma distinção importante entre nossas atitudes epistêmicas diante do testemunho de um amigo e diante de relatos de terceiros sobre um amigo. Particularmente, o que eu argumentarei é que o caminho que
leva da valorização da amizade às razões epistêmicas em apoio aos resultados doxásticos diferenciais quando nossos amigos estão envolvidos é, na melhor das hipóteses, frágil, já que envolve o que eu vejo como um movimento não autorizado de nosso desejo de preservar uma amizade para uma reação doxástica diferencial quando alguém testemunha negativamente sobre nossos amigos. Em segundo lugar, defenderei também que não devemos aceitar a prescrição da PE tão rapidamente. Argumentarei que, ao avaliar injustamente as credenciais epistêmicas de nossos amigos – algo que parece estar acontecendo em alguns casos de parcialidade epistêmica, podemos estar contribuindo para degradar as condições de trocas
epistêmicas justas em uma comunidade. Se esse for o caso, teremos uma razão pragmática para rejeitar a PE. Na primeira seção do artigo, apresentarei a tese da parcialidade epistêmica na amizade, focalizando principalmente na forma como Stroud a articula. Depois disso, na seção II, tratarei da rejeição da PE por Goldberg e apresentarei uma crítica à sua posição. Na terceira e última seção, defenderei o que vejo como uma preocupação importante se aceitarmos a PE e oferecerei uma razão pragmática para questioná-la.